sábado, 5 de abril de 2014

No cerne da estrada

Segunda-feira passada decidi testar uma rota diferente para percorrer o caminho entre Curitiba e Jacarezinho. Habitualmente eu vou de Curitiba a Piraí do Sul, que fica no meio do trajeto até Jacarezinho, via rodovia do café. Porém, desta vez eu resolvi utilizar a rodovia do cerne.
Já no início da viagem eu percebi que tinha cometido um erro. A rodovia é muito pior do que aparenta nos mapas e não tem praticamente nenhuma sinalização. Basicamente são mais de 100 quilômetros de uma estrada muita estreita e sinuosa, alternando pedaços de asfalto impraticável com outros de simples terra batida, tudo isso sem nenhuma cidade ao longo do caminho.
Ainda assim, tudo teria corrido bem não fosse por uma placa de pesque-e-pague. Em uma das várias bifurcações não sinalizadas existentes eu encontrei a dita placa indicando o caminho da esquerda. Supondo que esse seria um corredor específico para o pesque-e-pague, eu continuei à direita.
A princípio nenhuma das rotas estava de todo errada, como eu vim a descobrir mais tarde; o problema é que o trecho escolhido estava em piores condições, todo enlameado graças às chuvas dos dias anteriores, e em determinado momento meu carro acabou atolando. No fim das contas, uns dez moradores da região acabaram envolvidos na operação de mais de 3 horas pra tirar meu carro da lama (muito obrigado a todos!).
Pode parecer mentira, mas eu saí as 14 horas de Curitiba e só cheguei em Jacarezinho no 1° de abril...

Xadrez - Final do Torneio de Candidatos 2014

No último domingo acabou o torneio de candidatos ao título mundial de xadrez de 2014. O indiano Viswanathan Anand foi o grande vencedor, um ponto a frente do segundo colocado, Sergey Karjakin.
Contrariando todas as previsões (inclusive as minhas), Anand venceu e convenceu, garantindo o título com uma rodada de antecedência e terminando o torneio como único invicto. De fato, no meio das inúmeras surpresas que ocorreram durante a segunda metade do torneio, a liderança de Vishy foi uma das poucas coisas que permaneceu inabalada.
O segundo lugar de Karjakin não foi menos impressionante. Após terminar o primeiro turno na última posição com 5 empates e 2 derrotas, o contemporâneo de Carlsen conseguiu impor seu jogo e, ao lado de Anand, foi o único outro jogador a finalizar o torneio com resultado positivo (+1).
No meio da tabela encontramos Vladimir Kramnik, Shakhriyar Mamedyarov e Dmitry Andreikin, jogadores com pontuações iguais mas sentimentos bem diferentes. Para Kramnik o 50% foi um fracasso, e só veio após uma vitória sobre seu rival Topalov, num momento em que os dois já não tinham chances práticas de ganhar o torneio; Mamedyarov manteve um segundo turno discreto e não se pode dizer que o resultado do azeri impressiona de alguma forma, enquanto que para o último pré-ranqueado Andreikin 7 em 14 foi excelente, especialmente considerando sua vitória sobre o número 2 do mundo Levon Aronian na penúltima rodada.
Além da derrota para Andreikin na penúltima rodada, Aronian também perdeu a última partida para Karjakin, caindo de uma respeitável segunda colocação com +1 para um desastroso sexto lugar compartilhado em -1. Ao lado dele, outra surpresa negativa na figura de Peter Svidler. Nas palavras do próprio russo, ele foi o grande responsável por seu baixo desempenho, cometendo muitos "erros não-forçados".
Em um torneio em que os vencedores foram os que cometeram menos erros, ao sempre combativo, porém desta vez não muito inspirado Veselin Topalov coube a última posição.
Apesar da incontestável vitória de Anand, o evento se provou extremamente disputado: todos os jogadores venceram ao menos duas partidas e, com exceção do campeão, todos também perderam ao menos duas partidas.
Terminado o torneio e determinado o desafiante, fica a questão: conseguirá Anand pressionar Magnus Carlsen nesse match-revanche? como reflexão, deixo vocês com o cartoon "Back for more" (de volta para mais) de José Diaz.


sexta-feira, 21 de março de 2014

Xadrez - Considerações acerca do Torneio de Candidatos 2014 após 6 rodadas

De 13 a 31 de março acontece em Khanty-Mansiysk, Rússia, o torneio de candidatos 2014, competição que define quem será o desafiante do atual campeão mundial Magnus Carlsen pelo título máximo do xadrez num match que deverá acontecer no fim deste ano.
Após 6 das 14 rodadas previstas, o perdedor do último match pelo campeonato mundial, Viswanathan Anand, lidera a competição com 4 pontos, meio ponto a frente do número dois do ranking mundial Levon Aronian. Entre os outros 6 jogadores, encontram-se os ex-campeões mundiais Vladimir Kramnik e Veselin Topalov (3/6 cada um), além de Peter Svidler (3/6), Shakhriyar Mamedyarov (3/6), Sergey Karjakin (2,5/6) e Dmitry Andreikin (2/6).

Segue abaixo minha breve e humilde opinião sobre o desempenho dos jogadores até o momento e o que eles podem fazer nas 8 rodadas restantes:

Viswanathan Anand: jogador mais velho do grupo com 44 anos, "Vishy" vem surpreendendo a maioria dos especialistas não só pelo resultado em si mas também pelo bom xadrez apresentado, principalmente considerando seus fracos resultados nos últimos 5 anos. Admito que no começo eu também não acreditava nas chances do indiano, mas se passando quase metade do torneio fica cada vez mais difícil ignorar sua liderança isolada. Ainda assim, minha aposta é que seu ranking final será segundo ou terceiro, não primeiro.

Levon Aronian: o armênio alternou altos e baixos até aqui. Por um lado, recuperou-se muito bem da derrota na primeira rodada contra Anand, com vitórias convincentes sobre Mamedyarov e Svidler; por outro, as grandes chances desperdiçadas contra o lanterninha Andreikin na sexta rodada fazem nascer dúvidas a respeito de sua capacidade de lidar com a tensão nessa segunda metade do certame. As próximas duas rodadas devem definir se Aronian irá para o título ou para o meio da tabela.

Vladimir Kramnik: apontado como um dos grandes favoritos junto com Aronian antes do início da competição, o líder da delegação russa mostrou o de sempre até o momento: um jogo muito técnico, que alterna preparações precisas e sacrifícios bem calculados com reações descuidadas e lapsos de julgamento em partidas pontuais. Famoso por atuações sólidas mas não brilhantes, seu favoritismo é fruto do segundo lugar conquistado no último torneio de candidatos, em que ficou atrás de Magnus Carlsen somente nos critérios de desempate. A favor de Kramnik existe o fato de que, assim como em 2013, ele também está nos 50% após 6 rodadas. O fator negativo é que seu xadrez, até aqui, não se mostrou tão apurado quanto o apresentado naquela ocasião para que ele inicie uma reação. Assim como com Aronian, tudo depende de como ele reagirá ao revés da sexta rodada.

Peter Svidler: o simpático amante de críquete vem demonstrando uma grande vontade de vencer aliada com o que é talvez a sua melhor preparação (tanto enxadrística quanto física) para um torneio de alto nível até hoje. Infelizmente, uma decisão corajosa porém pouco prática contra Aronian e uma sequência de lances terríveis contra Mamedyarov colocam o russo no meio da tabela, com duas vitórias e duas derrotas. Meu palpite é que o foco e a preparação de Svidler vão se sobressair e eliminar seus lapsos nas próximas partidas, fazendo com que ele, ao lado de Aronian e Kramnik, esteja entre meus três favoritos ao título.

Veselin Topalov: Topalov é um dos jogadores mais imprevisíveis do grupo, tendo vencido bem Kramnik na última rodada para recolocar seu torneio nos eixos. Ainda que sua capacidade e criatividade quando em boa forma sejam incontestáveis, tenho a impressão de que o búlgaro não parece estar muito motivado para este torneio. Sim, ele continuará lutando e apresentando um xadrez extremamente dinâmico, mas, na minha opinião, seu esforço não será bom o bastante.

Shakhriyar Mamedyarov: a atuação descompromissada e despreocupada do azeri fizeram com que ele se recuperasse das duas derrotas iniciais para chegar até aqui também nos 50%. Entretanto, o consenso entre os especialistas é de que o xadrez de Mamedyarov não foi dos mais convincentes nas seis primeiras rodadas, sendo seu grande mérito o fato de aproveitar as oportunidades que lhe foram dadas. Mesmo com a fadiga virando um fator cada vez mais relevante entre os participantes, é difícil imaginar que isto será o suficiente para eliminar a diferença de classe entre ele e os outros favoritos.

Sergey Karjakin: aos 24 anos, o uma vez prodígio ucraniano naturalizado russo foi protagonista da maior parte dos empates sem luta do torneio. Sendo assim, seu resultado de cinco empates e uma derrota não chega a surpreender. De fato, o mais provável é que ele continue nesse ritmo fraco e insosso até o fim do torneio.

Dmitry Andreikin: o último pré-rankeado da competição não se mostrou uma grande ameaça até aqui. Mais do que isso: suas derrotas não foram resultado de más posições de abertura, o que significa que ele está efetivamente sendo superado pelos seus adversários na parte técnica da partida. Devido ao seu espírito combativo, talvez ele consiga fazer uma vítima no meio do caminho, mas a tendência é que ele continue mantendo contato direito com a parte de baixo da tabela.

terça-feira, 11 de março de 2014

Um texto que não é sobre xadrez

Qual a diferença entre Robert James Fischer e Adolf Hitler?
Pra quem não conhece xadrez, Robert James Fischer, mais conhecido como Bobby Fischer, foi campeão mundial de xadrez em 1972, derrotando Boris Spassky. Apesar disso, ele também ficou muito conhecido por ter abandonado o xadrez como campeão mundial (não defendendo seu título em 1975) e por seus discursos anti-americanos e especialmente anti-semitas.
Dada essa pequena introdução, voltamos à pergunta: qual a diferença entre Bobby Fischer e Adolf Hitler? talvez precisemos de mais algumas explicações...
Até hoje, Adolf Hitler é lembrado por todas as atrocidades que cometeu durante todo o seu "governo" na Alemanha nazista. Bobby Fischer, por outro lado, é conhecido como o grande campeão de xadrez que não realizou todo o seu potencial.
E se fosse o contrário? e se Bobby Fischer tivesse chegado ao alto escalão do governo nazista em 1933? e se Adolf Hitler fosse reconhecido como um grande pintor no começo da década de 1970? Certamente a história do xadrez e talvez das artes teria mudado radicalmente. Mas será que a história da humanidade seria diferente? Será que as atrocidades cometidas contra os judeus (entre outros povos) não seriam as mesmas?
Alguém poderia me questionar: por que essa pergunta logo agora? bem, Gary Kasparov (reconhecidamente um dos maiores jogadores de xadrez de todos os tempos) visitou recentemente o túmulo de Bobby Fischer, e quando perguntado sobre a ocasião fez declarações do tipo "Bobby não realizou seu potencial como enxadrista, não estamos prestando homenagem às suas polêmicas, mas ao grande talento enxadrístico que não realizou". E aqui fica a minha dúvida: vale a pena glorificar um homem pelos seus feitos enxadrísticos, mesmo sabendo que se ele tivesse oportunidade, provavelmente repetiria as mesmas atrocidades que outros cometeram?
Filosoficamente falando, existem um sem número de questões que poderiam ser levantadas a partir desses primeiros parágrafos. Mas tentando nos ater ao momento histórico, tentando levar em conta o raciocínio de Adolf Hitler e o raciocínio de Bobby Fischer, será que Bobby Fischer não poderia ser o mesmo grande estrategista que foi derrotado e do qual a história fala tão mal? será que Adolf Hitler não poderia ser a grande mente campeã mundial de xadrez? O que estou tentando dizer é: por que relevar os defeitos de Fischer e por que exaltar os defeitos de Hitler? Não seriam os dois pessoas absolutamente execráveis da mesma maneira?
Mais uma vez, cabe a pergunta: qual a diferença entre Adolf Hitler e Bobby Fischer? seria o fato de que Bobby nunca teve a oportunidade de mandar um judeu para a câmara de gás? e se sim, por que relevar toda a sua loucura e admirá-lo como pessoa? por que não apenas lembrar dos seus lances no tabuleiro e esquecer da pessoa nojenta que ele foi? por que visitar o túmulo de um nazista e dizer que ele merece ser elogiado?

segunda-feira, 3 de março de 2014

Canção do Exílio 386

Minha tela tem janelas,
Onde ouço um tuitar;
As aves, que aqui deslizam,
Não deslizam como lá.

Nossa RAM tem mais espaço,
Nosso HD tem mais teras,
Nosso desk tem mais programas,
Nossa internet mais megas.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro cá;
Minha tela tem janelas,
Onde ouço um tuitar.

Minha tela tem mil apps,
Que tais não encontro eu lá;
Em cismar -sozinho, à noite-
Mais prazer eu encontro cá;
Minha tela tem janelas,
Onde ouço um tuitar.

Não permita Mark que eu fique
Sem minha conta logar;
Sem que disfrute os mil apps
Que não encontro por lá;
Sem qu'inda aviste as janelas,
Onde ouço um tuitar.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

You grew on me

Eu estou aqui pra te apoiar. Eu não sou um fardo que você tem que carregar, eu sou o carregador que está aqui pra te ajudar. Eu estou aqui pra comemorar com você a alegria, pra te consolar na tristeza; pra ajudar nos seus planos de viagem, pra te defender e ficar do seu lado se você brigar com alguém; e só para te dar um sorriso se você não quiser falar nada.
Já vi seu rosto iluminado várias vezes, como naquela noite em que eu dancei pra você. Você me ajudou nos meus momentos difíceis, e se alegrou com minhas alegrias. Eu só quero essa sua companhia nesse momento da minha jornada.
Apesar do pouco tempo, a gente já passou por muita coisa junto. Eu te mostro um lado novo de Curitiba. Eu te mostro uma perspectiva diferente da sua cidade e dos seus arredores. A gente compartilha músicas, filmes, seriados, uma série de coisas que, de outra forma, não iria compartilhar ou mesmo conhecer. Eu também conheço um pouco mais de Curitiba ao seu lado. Vejo que o lugar aonde a gente se conheceu pode ter seus encantos. A gente se ajuda até pra dirigir, seja na cidade, seja na estrada. Trocamos opiniões nos mais diversos assuntos. Enfim, somos pessoas melhores juntos.
O que a gente ganha ficando separado? o que você deixou de viver por minha causa? É justamente o contrário: vivemos mais quando ficamos lado a lado.
Mas ainda foi pouco tempo. Agora que a gente estava se conhecendo de verdade. É hora de a gente conhecer mais lugares, trocar mais experiências. Agora é hora da gente se unir, e não de se separar.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Cem palavras

Estou há praticamente um mês sem escrever por uma razão muito simples: falta de motivação. No entanto, eu me propus a manter certa periodicidade, então cá estou para cumprir com meus compromissos.
Não existe nada que eu realmente queira dizer por aqui, pelo menos não agora. Sinto-me sem inspiração para piadas, sem humor para trocadilhos. Apenas prossigo, dia após dia, linha após linha.
Como de praxe, muita coisa me passou pela cabeça, mas nada que merecesse maior exploração. Jerry Seinfeld talvez extraísse alguma coisa, mas eu não fui capaz.
Sendo assim, só me restou uma alternativa: escrever sem palavras.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Última postagem de 2013

Enquanto alguns amigos em outras partes do mundo já celebram a chegada de 2014, eu, no Brasil, por volta das 13:30 do dia 31, sento em frente ao meu computador para escrever este texto, que é um símbolo do que foi o último ano e meio pra mim.
Todo ano, na época do natal, minha mãe me dá de presente um par de cuecas brancas, dizendo para eu usá-las na noite do reveillon, a título de boa sorte e coisas assim. Em geral eu seguia o conselho, mais por inércia do que qualquer outra coisa.
Entretanto, 2012 havia sido um ano terrível, e na véspera do ano novo eu pensei em como seguia certas tradições sem nem acreditar nelas. Decidi que iria colocar uma cueca velha qualquer, argumentando comigo mesmo que as coisas não tinham como ficar muito piores. E, de fato, esse pequeno gesto foi o estopim para um 2013 de muitas mudanças, a maioria delas pra melhor.
Apesar da poesia (e veracidade) dessa história, as mudanças, em geral, são processos lentos. Olhando pra trás, vejo sinais de certos comportamenos "positivos" já nos idos de 2011. Hoje, eu me vejo de volta no caminho certo, algo que, em certos sentidos, eu começara a perder em 2007.
Curiosamente, este blog nasceu pouco antes dessa perda de rumo, no fim de 2006. Desde 2008 que o número de textos anuais só caia, enquanto que o espaço entre as atualizações crescia exponencialmente.
Porém, este texto vem para provar que, aqui também, 2013 foi um ano de mudanças. Esta é a nona postagem do ano, uma a mais que em 2012. Um começo bastante tímido, é verdade, mas que faz parte de um projeto maior.
Para todos vocês, queridos leitores (leitores? que leitores?), meus votos de feliz ano novo através deste artigo do Buzzfeed e desta música de David Bowie.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Nada não

Hoje eu estava no ônibus pensando sobre o quê eu poderia escrever no blog e a única coisa que me veio foi o nada. O nada? Bem, de certa forma eu sempre escrevo sobre nada, mas acredito que não escrevi um texto sobre o nada em si.

Imagem do nada
E o que dizer sobre o nada? A princípio, não tem nada pra dizer... vejam o Seinfeld por exemplo, que se propunha a ser um show sobre nada. O nada "existe" na ausência; o show era basicamente sobre aquele grupo de amigos e as situações que eles viviam. Não existia outro conceito específico ou tema. Não existia mais nada.
Pesquisar sobre o nada também não é nada fácil. Uma definição do dicionário diz que nada é "coisa nenhuma". Convenhamos que não ajudou em nada...
Porém, o nada é muito presente em nossas vidas. O período entre a hora que você dorme e a hora que você acorda é preenchido por sonhos e... um grande nada; Depois que acaba o dinheiro no seu bolso, sobra a ausência, sobre o nada. O nada é esse nada indefinível que todo mundo sabe definir.
Poderia terminar dizendo que não tenho mais nada a acrescentar, mas isso não exaltaria o nada tanto quanto a sensação de vazio deixada por um parágrafo mal acabado. Sinto-me na obrigação de continuar.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Miragens

Caminhava tranquilamente pelo deserto. Sua água não duraria pra sempre e ele sabia disso, mas acreditava que o oásis estava próximo. Havia mais confiança nos seus cálculos do que indícios sólidos, mas ele continuava com seu passo aparentemente despreocupado.
Com o passar dos dias, ele começou a se perguntar se realmente queria o oásis. O que era o oásis afinal? apenas um lugar para reabastecer e seguir viagem? porque correr atrás de algo que poderia nem existir, quando a areia lhe parecia cada vez mais agradável?
Ele sabia no que suas dúvidas se baseavam. Vivera na floresta por algum tempo. Apaixonara-se pela floresta. Sabia que, objetivamente, a floresta tinha mais a oferecer. Sua passagem pelo deserto era uma espécie de acidente, um acidente que, de uma hora pra outra, passou a fazer sentido. Ainda assim, o plano sempre fora voltar para o cerrado, seu quartel general. Dali, o caminho para a floresta seria mais simples, ele pensava. Mas agora ele hesitava.
Nesse momento, uma parede começa a brotar do meio da areia. Uma parede alta, sólida, intransponível. Ele já ouvira falar dessa parede: ao terminar de se erguer, aparecia na base uma porta trancada. A chave geralmente ficava muito longe do local de origem da porta, de modo que poucos eram os que conseguiam atravessar para o outro lado.
Ao ver a parede começando a subir, ele foi tomado por uma vontade incontrolável de correr. Suas dúvidas já não pareciam tão importantes, as considerações acerca do deserto também perdiam sua relevância. Instintivamente, ele não queria estar deste lado da parede.
O curioso, porém, é que sua mente tampouco achava conforto ao pensar no outro lado. Ele não queria atravessar a parede naquele momento. Instintivamente, corria para ficar no lugar mais perigoso de todos. Ele sabia que não ficaria lá por muito tempo, mas, dadas as circunstâncias, sentia que era uma transição necessária.
Por alguma razão, ele corria para ficar em cima do muro.

domingo, 3 de novembro de 2013

Google this

Essa foi a frase que eu escrevi no cadê altavista yahoo bing mecanismodebusca pra ver se eu tinha alguma ideia pra escrever. Pelo título do texto, percebe-se que não foi muito produtivo.
Primeiro encontrei um site chamado "let me google this for you", ou complicadamente simplesmente "lmgtfy". Não satisfeito em mandar as pessoas pesquisarem as próprias dúvidas sozinhas, o cara resolveu criar um site que gera "tutoriais personalizados". Como metalinguagem pouca é bobagem, eu decidi colocar este exemplo pra vocês...
Depois de algumas notícias que não tem muito a ver (absolutamente nada a ver pra ser mais preciso) com a pesquisa, encontrei o verbete "google (verb)" da wikipedia. Apesar de em inglês o verbo ser bastante comum, e até dicionarizado, em português "googar" parece mais com o ato de bater em alguém ou alguma coisa com o Guga. Curiosamente, o próprio Google não gosta de ver seu nome sendo utilizado como verbo na língua inglesa. O que a gente não acaba encontrando nessas googadas...
Pra fechar com chave de ouro, eu passei num ourives (e também achei esta palavra para abrir o próximo texto)...

domingo, 6 de outubro de 2013

Debatendo(-me) com as paredes

Se eu fosse escrever aqui tudo que passa pela minha cabeça, talvez eu fizesse algum tipo de sucesso. Não deve ser nada de diferente; acredito que qualquer pessoa que consiga transcrever seus pensamentos para uma folha de papel (real ou virtual) de maneira verdadeira e coerente deve obter textos interessantes. Porém, eu faço parte da maioria que não quer ou não consegue, seja por falta de habilidade, seja por falta de disposição. No fim, apresento esses arremedos pseudopessoais, com um ou outro toque de comicidade.
Qual a finalidade de tudo isso? Não sei. Eu me perdi em alguma esquina entre o pessoal e o fictício e agora fico vagando pelo cinismo. Eu me perdi no caminho da prolixidade. Eu me perdi.
O que me sobra é minha incoerência iletrada, minha tristeza descabida.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Plano Plurianual

Hoje, 30 de setembro de 2013, marca um novo tempo no blog. A partir deste mês, eu me comprometo a manter uma periodicidade mensal.
O que isso quer dizer exatamente? Quer dizer que vocês verão ao menos um texto novo todo mês. Podem ser dez textos em outubro, apenas um no dia primeiro de novembro, seguido de mais quarenta em dezembro; mas pelo menos um texto por mês.

Perguntas óbvias:
"Por quanto tempo?"
Inicialmente por 5 anos.
"5 anos?"
Sim. Parece ser um plano bastante longo, mas considere que não estou me comprometendo aqui com um artigo científico por mês; neste sentido, meu único compromisso é com uma melhora na minha redação em geral.
"Como serão estes textos?"
A princípio, nada de muito diferente do que eu já apresento nesta página. Como eu disse na resposta anterior, não quero me obrigar a escrever um artigo científico por mês, mas também não me limitarei a um parágrafo de apenas três linhas a cada 40 dias. Postagens pequenas, como o próprio parágrafo de três linhas, podem eventualmente ocorrer, mas apenas como postagens 'extras'.
"Que garantia eu tenho de que você irá cumprir sua palavra? Afinal, essa não é a primeira vez que você se propõe a algo do tipo."
De fato, eu não posso dar nenhuma outra garantia além da minha palavra. Acompanhem o desenrolar dos acontecimentos por conta e risco. A julgar pelo histórico do blog, nem qualidade eu posso assegurar...
"E depois desses 5 anos?"
 A ideia é que esses 5 anos sejam a retomada de uma prática regular de produção de textos. Apesar de estar completando 7 anos de existência no mês que vem, o blog vem amargando uma diminuição no número de textos ano após ano, além dos longos períodos sem atualização que começaram a ocorrer no início de 2011, quando o plano inicial é que fosse justamente ao contrário.

No mais, a intenção é retomar a ascendente no número de textos por ano já em 2013. Sendo assim, fiquem na expectativa de pelo menos cinco textos nos próximos 90 dias. Também me proponho a manter uma distância de no máximo 40 dias entre cada texto, para evitar, por exemplo, de publicar um texto no dia primeiro de março e o seguinte somente no dia trinta de abril, perfazendo um vácuo efetivo de quase dois meses.

"E os trocadalhos infomes? E as piadas sem graça alcançada?"
Por esses eu não me responsabilizo...

terça-feira, 23 de julho de 2013

Estatúpidas

Diretamente do Instituto Datafôdasse:


23% da relação de links foi atualizada hoje (100% são mais relevantes que este);
Aproximadamente 46% dos textos do blog foram escritos entre meia-noite e seis horas da manhã (o que significa que eu deveria dormir mais cedo);
165 comentários nas 124 postagens originais (o último de dezembro de 2010, perfazendo 19 textos "invicto")
Dois textos têm a "honra" de serem os mais comentados até hoje: "Metamorfo" e "Trabalhando" (os 7 pecados capitais);
Obviamente o texto mais visualizado é um dos mais estúpidos, senão o mais estúpido de todos (consegui até a "honra" de ser um dos primeiros resultados de pesquisa no google quando se digita "bobs fenomeno". Nada mais justo do que ser reconhecido por uma imbecilidade);
Pra terminar, a escolha da audiência: o post mais engraçado do blog.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Essa não teve graça

Já viram aquele viral dizendo que o melhor jeito de ganhar flores no dia dos namorados é morrendo? Pois é, meu pai levou a sério.
Eu nunca prezei muito por essa data, até porque não sou exatamente um Don Juan e sempre passei sem namorada, mas é irônico que agora eu tenha um motivo pra me lembrar do 12 de junho pra sempre. Quase tão irônico quanto o fato de eu ter chorado pela primeira vez a morte dele logo após escrever esta frase. Uma semana antes do aniversário dele. A sequência de ironias mais sem graça da história.

Seguindo a tradição do blog, mais um post de 12 de junho em que o tópico principal não é o dia dos namorados. Descanse em paz, pai.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

ECA 2

Primeiramente, a questão mais importante: qual a cor do cavalo branco de Napoleão?
Agora, respondendo à pergunta do porquê desse título (até porque os mais de 5 meses sem escrever no blog não tem a menor importância), o ponto é que eu estava vasculhando uns textos antigos pra ver se achava alguma inspiração para o tema da minha apresentação num concurso de oratória e me deparei com este texto, que acabou me fazendo pensar o quanto o significado dessa sigla, graças a outras mudanças na minha vida, mudou pra mim. Obviamente que eu nunca tinha ligado ECA a uma associação de eletricistas ou à Faculdade de Artes de Edimburgo, mas até pouco tempo atrás sempre que eu pensava em ECA, eu pensava na Escola de Comunicações e Artes da USP. Por quê? Porque eu sou meio retardado é a única explicação que eu tenho, já que nunca estudei lá e nem mesmo conheço São Paulo ou qualquer campus da USP.
Hoje, ainda que a referência à ECA-USP continue presente, ECA também me lembra Estatuto da Criança e do Adolescente. "Que importância tem isso?", você me pergunta. Nenhuma. Quer dizer, é claro que isto tem alguma importância, mesmo que simbólica, para mim, mas para este blog o único valor reside na motivação para escrever outra crônica sem graça. Em outras palavras: este texto ficou uma verdadeira eca.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Ele não voltou

Era 1985 e ele decidira viver a vida. Desistiu de tudo: da família, da sociedade, do contrato social. Aprendeu diversas línguas, jogou a dinheiro, até mesmo cantou numa banda de rock. Tentou trabalhar, dar aulas de inglês.
A realidade é que ele não fizera nada.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Ócio descartável

"Ócio descartável", uma expressão ridícula e que não vale um parágrafo. Porém, o que vale um parágrafo? O que vale um texto?
Na dúvida, fico com o troco.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Um dia, uma semana

In Memoriam

Infelizmente, a segunda-feira viria com um balde de água fria. Terça fui trabalhar e descobri que minha amiga, a mesma de domingo, também tivera suas desventuras naquela segunda. Quarta foi dia de ficar em casa e pensar na vida. Na vida e no tédio. Para compensar, muitas atividades na quinta, incluindo uma visita à Biblioteca Pública do Paraná.Eis que começa a sexta-feira, às nove horas da manhã. Pego o ônibus e vou lendo Animal Farm. O livro, por alguma razão, mexe comigo. Amigo secreto seguido de almoço de confraternização no trabalho resultam no meu esporte preferido: observação de interações sociais. Fiquei tão absorto com a reunião que consegui esquecer como sempre fico perdido e isolado nessas situações.
Hora de voltar pra casa e dividir o ônibus com a amiga do trabalho. Parada no shopping, retomada do caminho. Teria o dia chegado ao fim?
Não. Descendo no ponto de ônibus, enquanto pensava nas mais recentes páginas de Animal Farm, vejo duas moças nos seus 15 anos andando de bicicleta. Uma delas, minha conhecida, tinha o rosto carregado de maquiagem. Ao mesmo tempo, avisto um dos bêbados do bairro (que por sinal eu também conheço de vista) cantando para elas o famoso versinho "Eu queria ser o banquinho da bicicleta". Um aceno para cada um.
Chegando perto de casa, a cereja do bolo: descubro que deixei a chave de casa no trabalho. O meu distante trabalho. Por sorte já tem gente em casa.
E agora, um sentimento me domina. O mesmo sentimento que me atingiu em tantos outros momentos da semana. Uma angústia inexplicável. As mais diversas razões, o mesmo sentimento. A semana ainda não acabou.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Tratado elementar de semantica

Tres e quarenta da manha, voce na casa de um amigo, num computador sem acentuacao, rindo da primeira frase escrita. E, parece que e um bom momento pra retomar o blog! Pode ser que as piadas sem graca continuem sem graca, mas os assentos nao te deixarao na mao (oooops).
Antes de mais nada, me recuso a usar 'eh' e similares. Pelo menos caqui, amora. No comeco foi por uma especie de purismo idiota, ate porque minha gramatica nao e tao boa quanto eu gostaria. Mas, novamente, a primeira frase me venceu. Tres horas e quarenta minutos da manha. So percebi agora que precisaria escrever tudo pra fazer algum (duplo) sentido... perca o sentido mas nao perca a piada...
E para os odiadores (haters soa bem, odiadores soa idiota. Assim como usar girias em ingles no meio de um texto em portugues. Assim como evitar 'h's e 'aum's para gerar ambiguidade.) de reticencias de plantao... sim, eu nao parei e nao pararei de usa-las (nem vou falar dos 'parentes')! E mesmo que eu aprenda portugues (e russo, por sinal!), eu continuarei usando e abusando, com trocadilhos sexuais se possivel, das reticencias. (quer dizer, ... , quer dizer, !)
Desafio concluido! mais um texto sem menor razao de existir terminando! e (para usar mais um 'e'), finalmente, deixo aqui...